21 setembro 2006

6-História da Psicologia e o problema do conhecimento
Professora: Madalena Assunção

O século XVIII representa, na história do homem, o momento da culminação de um processo em que se subverteu a imagem que ele tinha de si próprio e do mundo. A emergência da nova classe dos burgueses determina a produção de uma nova realidade cultural, a ciência física, que se exprime matematicamente. A atividade filosófica, a partir daí, reinicia um novo trajeto: ela se desdobra como uma reflexão cujo pano de fundo é a existência dessa ciência.
A revolução científica determinou a quebra do modelo de inteligibilidade existente até o momento e faz surgir a principal característica do pensamento moderno: a questão do método.
Essa preocupação centraliza as reflexões não apenas no conhecimento do ser (metafísica), mas sobretudo no problema do conhecimento (teoria do conhecimento ou epistemologia).
Podemos dizer que até então a filosofia tem uma atitude realista, no sentido de não colocar em questão a existência do objeto, a realidade do mundo. A idade Moderna inverte o pólo de atenção, centralizando no sujeito a questão do conhecimento.
Há dois pólos no processo do conhecimento: o sujeito cognoscente (que é o sujeito que conhece) e o objeto conhecido. Assim, o conhecimento é uma dualidade de sujeito e objeto expressa numa relação. Isto é, o sujeito tende para o objeto e dele se “apossa” pelo pensamento, assim como o objeto “determina” o pensamento do sujeito.
Surge então uma questão: se o pensamento que o sujeito tem do objeto concorda com o objeto, dá-se o conhecimento. Mas qual é o critério para se ter certeza de que o pensamento concorda com o objeto? Isto é, um dos problemas que a teoria do conhecimento terá que propor e solucionar é aquele de saber quais são os critérios, as maneiras, os métodos de que se pode valer o homem para ver se um conhecimento é ou não verdadeiro.
As soluções apresentadas a essas questões vão originar duas correntes, o Racionalismo e o Empirismo.
René Descartes (1596-1650) – seu ponto de partida é a busca de uma verdade primeira que não possa ser posta em dúvida. Por isso, converte a dúvida em método. Começa duvidando de tudo, das firmações do senso comum, dos argumentos da autoridade, do testemunho dos sentidos, das informações da consciência, das verdades deduzidas pelo raciocínio, da realidade do mundo exterior e da realidade do seu próprio corpo.
Descartes só interrompe essa cadeia de dúvidas diante do seu próprio ser que duvida. Se duvido, penso; se penso, existo: Cogito, ergo sum, - Penso, logo existo. Eis aí o fundamento, o ponto de partida de onde constrói todo o seu pensamento. Mas este “eu” cartesiano é puro pensamento, uma res cogitans (um ser pensante), pois, no caminho da dúvida, a realidade do corpo (res extensa, coisa externa, material) foi colocada em questão. Nessa teia, não há nenhuma garantia de que o objeto pensado corresponda a uma realidade fora do pensamento. Como sair do próprio pensamento e recuperar o mundo?
Descartes admite as idéias inatas, que são idéias da razão, independentemente das idéias que “vêm de fora”, formadas pela ação dos sentidos, e das outras que nós formamos pela imaginação. São inatas, não no sentido de o homem já nascer com elas, mas como resultantes exclusivas da capacidade de pensar. São idéias claras e distintas; portanto, verdadeiras. Nessa classe de idéias estão as idéias da substância infinita de Deus e a idéia da substância finita com seus dois grandes grupos – a res cogitans (ser pensante) e a res extensa (coisa externa, material)
Assim, além da ênfase no método, ou seja, na organização do conhecimento, René Descartes diz haver no mundo três substâncias: uma pensante – ALMA -, uma material – CORPO – e uma infinita – DEUS.
Essa tricotomia cartesiana – alma, corpo, Deus, definirá os rumos do desenvolvimento da Psicologia e de outras ciências, até os tempos atuais.
A divisão entre mente e matéria trouxe conseqüências importantes para a construção do conhecimento do ambiente e do homem.
A partir de Descartes, dois grandes sistemas filosóficos vão se desenvolvimento – o RACIONALISMO e o EMPIRISMO –, tais sistemas são definidores de muitas das correntes psicológicas do mundo contemporâneo. O pensamento de Descartes, considerado como o fundador do racionalismo moderno, contribui, em muito, para as bases do desenvolvimento da Psicologia e das demais ciências.
O Empirismo – do grego empeiria – que significa “experiência”, enfatiza o papel da experiência sensível no processo do conhecimento.
John Locke (1632-1704) – a sua reflexão a respeito da teoria do conhecimento parte da leitura da obra de Descartes e consiste em saber “qual é a essência, qual a origem, qual o alcance do conhecimento humano”.
No entanto, deixa o caminho “lógico” percorrido por Descartes e escolhe o “psicológico”. Ao escolher o caminho da psicologia, distingue duas fontes possíveis para nossas idéias: a sensação e a reflexão. A sensação é o resultado da modificação feita na mente através dos sentidos. A reflexão é a percepção que a alma tem daquilo que nela ocorre. Portanto, a reflexão se reduz apenas à experiência interna do resultado da experiência externa produzida pela sensação.
O que ocasiona a produção de uma idéia simples na mente é a “qualidade” do objeto. Há qualidades primárias, como a solidez, a extensão, a configuração, o movimento, o repouso e o número, e qualidades secundárias (cor, som, odor, sabor etc.), que provocam no sujeito determinadas percepções sensíveis. Enquanto as primárias são objetivas, pois realmente existem nas coisas, as secundárias variam de sujeito para sujeito e, como tais, são relativas e subjetivas.
O sujeito, através da análise, ata e desata as idéias simples, produzindo as idéias complexas. Estas, já que são formadas pelo intelecto, não têm validade objetivas. São nomes de que nos servimos para denominar e ordenar as coisas. Daí o seu valor prático, e não cognitivo.
Se estabelecermos uma comparação com o processo cartesiano de conhecimento, podemos dizer que, enquanto Descartes enfatiza o papel do sujeito, John Locke enfatiza o papel do objeto.
Locke critica as idéias inatas de Descartes, afirmando que a alma é como uma tábula rasa (uma tábua onde não há inscrições), uma cera onde não há nenhuma impressão, e o conhecimento só começa após a experiência sensível. Se houvesse idéias inatas, as crianças já as teriam; além disso, a idéia de Deus não se encontra em toda parte, pois há povos sem nenhuma representação de Deus ou pelo menos sem a representação de um ser perfeito.
Numa síntese bastante simplista poderíamos dizer que o racionalismo é o sistema que consiste em limitar o homem ao âmbito da própria razão, e o empirismo é o que limita ao âmbito da experiência sensível. Isso não quer dizer que o racionalismo exclua a experiência sensível, mas esta é apenas a ocasião do conhecimento e está sujeita a enganos. A verdadeira ciência se perfaz no espírito. Para o empirismo, ao contrário, a experiência é fundamental, e o trabalho posterior da razão está a ela subordinado. Como conseqüência, os racionalistas confiam na capacidade do homem de atingir verdades universais, eternas, enquanto os empiristas terminam por questionar o caráter absoluto da verdade, já que o conhecimento parte de uma realidade in fieri (isto é, em transformação constante), sendo tudo relativo ao espaço, ao tempo, ao humano.
As perspectivas Racionalista e Empirista do conhecimento florescem nos séculos XVII e XVIII; ambas preocupadas com o problema do conhecimento e concordantes em que o homem não conhece diretamente as coisas, mas o conhecimento das coisas, a saber, as impressões que os objetos exercem sobre ele mesmo: sobre o seu intelecto (Racionalismo) e sobre seus órgãos de sentido (Empirismo).
O Racionalismo e o Empirismo do século XVIII dão o substrato filososófico dessa reflexão: Descartes justifica o poder da razão de perceber o mundo através de idéias claras e distintas; John Locke valoriza os sentidos e a experiência na elaboração do conhecimento.
Immanuel Kant (1724 – 1804) interessado desde o início pela ciência newtoniana, já constituída plenamente no seu tempo, e preocupado com a confusão conceitual a respeito do debate acerca da natureza do nosso conhecimento, questiona se é possível uma “razão pura” independente da experiência. Daí seu método ser conhecido como Criticismo.
Diante da questão “qual é o verdadeiro valor dos nossos conhecimentos e o que é conhecimento? Kant coloca a razão num tribunal para julgar o que pode ser conhecido legitimamente e o que tipo de conhecimento não tem fundamento.
Condena os empiristas (tudo que conhecemos vem dos sentidos) e, da mesma forma, não concorda com os racionalistas (é errado julgar que tudo quando pensamos vem de nós): o conhecimento deve constar de juízos universais, da mesma maneira que deriva da experiência sensível.
Para superar essa contradição, Kant explica que o conhecimento é constituído de matéria e forma. A matéria dos nossos conhecimentos são as próprias coisas, e a forma somos nós mesmos. Para ele, não é possível conhecer as coisas tais como são em si, ou seja, o noumemon (a coisa-em-si) é inacessível ao conhecimento. Apenas podemos conhecer os fenômenos; esta palavra, etimologicamente, significa “o que aparece”. A inovação de Kant consiste em afirmar que a realidade não é um dado exterior ao qual o intelecto deve se conformar, mas, ao contrário, o mundo dos fenômenos só existe na medida em que “aparece” para nós e, portanto, de certa forma participamos da sua construção.
Se propõe a fazer a síntese crítica do Racionalismo e do Empirismo. Para ele a inteligência não se limita a receber marcas do ambiente, como uma cera mole, como diziam os empiristas para os quais os objetos determinavam o sujeito. Nem tampouco o sujeito determinava os objetos como queriam os racionalistas. Para Kant, a inteligência percebe os objetos por meio do entendimento a priori que se manifesta no momento exato da experiência. Nenhum conhecimento precede a experiência mas todos os conhecimentos começam com ela. Só na atividade de pensar é que se cria o objeto como objeto pensado.
Depois de Kant o pensamento filosófico se manifesta entre duas posições aparentemente antagônicas: o IDEALISMO e o POSITIVISMO. Nestas duas concepções o dilema anterior sobre o conhecimento sensível e o conhecimento racional, bem como as relações do corpo e da alma permanecem.
Antes de Kant => Racionalismo e Empirismo
Depois de Kant=> Idealismo e Positivismo
Positivismo => segunda metade do século XIX, como reação ao apriorismo do idealismo
A construção do conhecimento psicológico é fortemente influenciada, a partir do século XIX, pelo positivismo e somente a partir daí a Psicologia se constitui um ramo de conhecimento definido através de um objeto de estudo delimitado – as atividades psíquicas da consciência ou comportamento.
Racionalismo e Empirismo => eixos epistemológicos que a partir dos quais as principais teorias psicológicas da atualidade se desenvolveram. Mas essas concepções conviveram também com teorias de desenvolvimento e de aprendizagem, de base dialética e construtivista, que procuravam explicar o comportamento humano de modo a não dicotomizar a relação sujeito-objeto na construção das estruturas individuais.
A dicotomia corpo/mente, afeto/cognição, está presente em nosso cotidiano, e mesmo sem nos darmos conta disso, essa dicotomia encontra-se presente na forma como nos referimos às nossas ações diárias, e também presente na produção e na incorporação do conhecimento produzido.
Essas idéias fazem parte da cultura ocidental e uma visão ocidental dicotômica entre corpo/ama – matéria/mente.
Essa visão que se encontra presente em nosso cotidiano tem suas raízes na cultura greco-romana. Em Platão, por exemplo corpo/matéria era tido como obstáculo para se chegar ao conhecimento do mundo das idéias, que constituem a verdadeira realidade para ele.
Essa visão dualista do ser humano, considera a aprendizagem como um processo apenas consciente e produto da inteligência, deixando todas as demais dimensões envolvidas neste processo de lado. É comum, inclusive, ouvirmos, se quisermos entender como uma criança pensa, leia Piaget, e se quisermos entender o que sente uma criança, leia Freud.

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